O BRASIL NO FUNDO DO POÇO OU O PESSIMISMO FOMENTADO                                                        
14-08-2015
        

         Antes das manifestações contra Dilma dia 16, respondi no facebook um post angustiado de uma sobrinha, certa de que o Brasil atingiu o fundo do poço, que não há saída. E a angústia não é só dela. É de muitos milhões de brasileiros não raras vezes presas fáceis do golpismo.


        Querida sobrinha, eu lhe digo que não há razão para tanto pessimismo. O Brasil passa realmente por uma crise, mas longe de ser a pior da História recente. Em termos históricos, “recente” abarca pelo menos umas três gerações e a tendência nossa é confundir o tempo desse processo com nossa própria existência. Sem falar que existe o “esquecimento”, deliberado ou não, das mazelas do passado. Para a vida do indivíduo é o aqui e agora que interessa.


        O Brasil vive um momento de avanço histórico desde a queda da ditadura militar, apesar de pequenos recuos, aqui e ali. Mesmo com um Eduardo Cunha, Calheiros e um montão de deputados e senadores corruptos, o momento político é mil vezes melhor do que na época quando uns poucos militares e civis ligados a eles mandavam e desmandavam com seus atos institucionais e suas operações Bandeirantes e Doi-Code, sequestrando, matando e torturando.


        Em termos da História da Republica, estamos vivendo o seu melhor momento quanto à liberdade individual, onde se pode organizar sem nenhum constrangimento panelaços e manifestações e até se referir à presidenta com palavras de baixo calão. Prega-se abertamente o golpe e também o outro lado não tem nenhum constrangimento de manifestar. Além do mais, a corrupção nunca foi atacada como está sendo agora em toda a História do Brasil. Décadas atrás era inconcebível colocar na cadeia os presidentes das maiores construtoras do País e a corrupção, endêmica ao Poder, era certamente maior. Não concordo com a delação premiada abusiva da Operação Lava a Jato, mas é inegável que ela sacudiu as estruturas da impunidade, quando políticos não tinham constrangimento em dizer de peito aberto: “roubo, mas faço”. Mas não tenha dúvida, corrupção e poder são como unha e carne, outros métodos serão desenvolvidos. Mesmo agora, os lucros astronômicos dos bancos num momento de crise são roubos quase a mão armada perpetrados pelas instituições financeiras e, contra as quais,   Aldo Moro não pode fazer nada, pois são “legais”, com todas as aspas que quiser.


        Quando eu era criança, ainda durante a Segunda-Guerra Mundial, enjoei-me de comer bolo de fubá, pois não era possível importar farinha de trigo para fazer pão. E o Brasil ainda vivia sob a ditadura feroz de Getúlio Vargas, usurpador de uma revolução para derrubar de vez a  República Velha moribunda com seus coronéis do café com leite, controlando os eleitores como se tangendo gado. Na Nova República, a partir de 1945, continuaram existindo os quarteis eleitorais por pelo menos 15 anos, onde ainda se podia comprar um voto por um par de botina. Os currais eleitorais desapareceram, dando lugar aos currais eletrônicos comandados pelas grandes redes. E, na frente das liberdades individuais – ainda que tenha havido um grande récuo com o golpe de 64 – havia muito mais restrições do que agora. Pio XII, papa de 1939 e 1958 e autor da Concordata com Mussolini assinada por seu antecessor Pio I, tinha um discurso de dar inveja à bancada evangélica. Discurso e ação. Minha infância foi ditada pelo Lar Católica, porta voz da Igreja que se julgava acima do Estado.  A miséria e a fome atingiam um grau que poucos jovens sequer imaginam. Mesmo a falta de conforto para  a classe média no interior seria hoje de dar asco: tinha-se um pinico debaixo da cama e as necessidades se faziam diretamente numa fossa no quintal.


        Hoje, na Internet, ainda há gente que louva essa época. O eterno saudosismo dos que têm medo do progresso. Mas o que me cansa mesmo, hoje, é o discurso nas redes sociais e na grande imprensa conservadora de que o Brasil atingiu o fundo do poço, que nunca se viveu época pior e mais corrupta do que agora. Esquece-se que o Brasil na última década passou de devedor a credor do FMI, que a miséria diminuiu e o País chegou a ser a sexta economia do Planeta. Mas, não. Estamos no fundo do poço. No pior momento da História do Brasil. No mais visível, esse discurso vem da massa, que é manipulada, mas não saiu do nada. Há gente com interesses espúrios, golpistas, preparando esse discurso linha por linha, taxando de comunista o governo do PT, quando ele mal chega a ser socialdemocrata e tem no comando da economia um Joaquim Levy com a mesma política neoliberal que Armindo Fraga executaria sob Aécio Neves. São nojentos os interesses por trás da manifestação programada para o dia 16 de agosto com o interesse declarado dar um golpe. Se eu estivesse no Brasil eu iria na manifestação do dia 20, junto aos movimentos sociais, os sem-terra, os sem-teto, os sindicatos e outros grupos críticos aos rumos do governo, mas voltados para o futuro, não pregam a marcha à ré da História com golpismos fora do tempo.

 

 

MATAR PEIXE INTIMIDA ALGUÉM?"

26-08-2015

 

        A fama agorenta de agosto vem de longe. Mês de ventania e cachorro doido. Mês de suicídio com tiro no peito. Mês de renúncia abrindo caminho para golpe de Estado. Calma, gente, estou falando da renúncia do Jânio Quadros dia 25 de agosto de 1961.

 

        Mas agosto é, sobretudo, o mês do maior genocídio da História com o tempo contado em segundos. Basta lembrar a manhã de 6 de agosto de 1945, há 70 anos, quando uma fortaleza B-59, chamada de Enola Gay – nome da mãe do comandante – deixou cair o Little Boy sobre Hiroshima. No tempo que você levar para dizer um longo bum morreram 69 mil pessoas numa cidade sem nenhum alvo militar. A intenção dos mandantes foi uma só: matar para aterrorizar e intimidar. Três dias depois, em 9 de agosto, outra bomba sobre Nagasaki, também numa região sem complexos militares. Nas duas cidades, entre as quase 100 mil pessoas que morreram durante ou pouco depois das explosões, somam-se 200 mil outras vítimas de ferimentos e mazelas deixadas pela radiação durante anos a fio. 

 

       Por décadas, a máquina de propaganda dos Estados Unidos, que se firmavam como a potência número 1 do Planeta, martelou que as bombas tiveram o fim de abreviar a rendição do Japão e, com isso, salvar a vida de pelo menos 1 milhão de soldados estadunidenses. Mentira deslavada. Só, cercado por todos os lados, depois da capitulação de Hitler e Mussolini três meses antes, o Japão estava pronto para a rendição inevitável. Truman, seus ministros e generais insistiam no fato de que a rendição teria de ser total contra o desejo japonês de continuar reverenciando seu imperador. Mentira. Após a destruição de Hiroshima e Nagasaki, o general McCarthur, tão bonzinho, permitiu a permanência do imperador que nunca exerceu sua influência para deter seus generais. Em novembro de 1963, em entrevista à News Week, o ex-presidente Eisenhower e ex-comandante das tropas aliadas na Europa, admitiu sem meias palavras: “...os japoneses estavam prontos para se renderem e não era necessário abater sobre eles aquela coisa horrível”.  Em julho de 1945, ainda no comando das forças aliadas, Eisenhower já havia se manifestado contra o uso da bomba.

Einsenhower, o mesmo que denunciou o “complexo industrial-militar”, bateu na tecla certa. As duas bombas foram despejadas poucos dias depois de a União Soviética anunciar o desejo de declarar guerra formal  contra o Japão. Nos bastidores, circulava a informação de que os japoneses iriam render-se aos soviéticos.

 

        Aí Truman e seus conselheiros decidiram soltar as bombas antes da capitulação anunciada. Você pode ver o trama em detalhes no Livro Negro dos EUA, de Peter Scowen.

 

        Fica bem claro que o objetivo do morticínio não era a rendição do Japão, mas justamente intimidar a então União Soviética que já tinha obtido o trunfo de invadir Berlim antes dos Estados Unidos. Matar muita gente com um pancada só e com uma arma exclusiva dos estadunidenses. Nascia a deterrance, a intimidação com uma arma apocalítica. A guerra fria nasce na luta desesperada da União Soviética para obter a bomba e os esforços dos EUA para impedir que isso acontecesse.

 

        Não se sabe que isso ocorreu realmente, mas há um boato de que numa reunião de Truman com seus conselheiros, alguém sugeriu que a bomba fosse lançada no mar, convidando-se representantes da União Soviética, do Japão e outros países para ver o estrago que ela faria. Harry Truman teria perguntado:

 

        “Matar peixe intimida alguém?”

 

        Não se sabe se é verdade ou não essa frase cínica, O fato é que as bombas sobre Hiroshima e Nagasaki constituíram uma das coisas mais hediondas da Segunda Guerra Mundial pródiga na matéria.  Truman talvez mereça o lugar de mais destaque na galeria dos assassinos em massa, ao lado de Hitler, Stalin, os generais japoneses e o paspalho do Heroito durante a carnificina de 1939 a 1945..

 

 

 

 

CADÊ O FUTURO?

02-09-2015

 

         

          As décadas de 60 e 70 do século passado foram anos de chumbo no Brasil sob a ditadura militar, mas em todo mundo vivia-se uma febre futurista. Kubrick no filme 2001 Odisseia no Espaço, com base em livro de Arthur Clark, imaginava cruzeiros turístico para a Lua no início do século e viagens programadas para Marte que está tão próximo. Pois estamos em 2015 e o que existe é um projeto de viagem para o planeta vermelho, mas sem bilhete de volta. Na década de 70, no auge da febre futurista,  foi chocado o ovo da internet pelos funcionários dos serviços de espionagem dos EUA. Eles se aproveitavam das facilidades de comunicação entre os possantes computadores da CIA e do Pentágono para trocarem mensagens pessoais. Bingo! Mas foi preciso esperar até a década de 80 para o advento dos computadores pessoais e, aí, a ideia começou a vingar em maior escala. Demorou uma década para que tais computadores evoluíssem de carroças cibernéticas como o Comodoro 64 (quem se lembra?)  para máquinas com mais memória e programas que permitissem as interconexões. Era coisa de 10 minutos a meia hora para enviar um simples e-mails utilizando as precárias linhas telefônicas no início da década de 1990. Por volta do ano 2000, já havia 200 milhões de pessoas ligadas à internet, quase todas nos EUA, na Europa e Japão. Na África contava-se nos dedos e, em toda a América Latina, privilégio de pouco mais de 5 milhões.

          Quanta frustração para quem bebeu na fonte futurista dos anos 60 e 70! Herman Khan, do famoso Hudson Institute de Nova York, previu o fim da fome no ano 2000 graças à produção de alimentos em estufas bem protegidas, independente das loucuras climáticas. Em 1967, o supercomputador da Rand Corporaion em Santa Mônica, Califórnia, talvez tenha tido seus circuitos alimentados com LSD baratinado de otimismo: previu carros sem motorista em 1985 e, a partir do ano 2000, o ensino em maternidade, inoculando-se no cérebro de um recém-nascido algo equivalente a uma Enciclopedia Britânica inteira. E a Sibéria, gente, transformada num paraíso verdejante, iluminada por sois artificiais por conta da fusão nuclear, limpa e não poluidora.  E toca lá cidades cibernéticas, cobertas por cúpulas transparentes, livres de toda poluição, com a taxa de oxigênio exata que necessitamos.  O setor agrícola em toda a Rússia totalmente sob controle com robôs zelando até pela respiração das plantas, afirmava com orgulho socialista o Centro de Cálculo da Academia de Ciências da ex-União Soviética. Jacques Bergier da revista Planète, outro que abusou da pílula futurista, enxergava fila de gente nos centros de congelamento para ser acordada em 100, 200, sei lá quantos anos.

          No já citado 2001, Uma Odisseia no Espaço, nas telas a partir de 1968, além de turistas em vôo de carreira para a Lula ao som do Danúbio Azul, uma nave com muitos dos tribulantes congelados rompia a imensidão do espaço lá pelos lados de Saturno sob o comando de um robô gigantesco. A nano tecnologia não havia sido devidamente prevista.

          Pouca coisa, pouca coisa mesmo, se cumpriu dessa febre futurista. Nem se cumpriram previsões de visionários anteriores. O desenvolvimento do Capitalismo não desembocou no Comunismo, a sociedade sem classes sociais, pois não haveria escassez, conforme previa o jovem Karl Marx e seu amigo Frederick Engels no Manifesto do Partido Comunista de 1848. Felizmente, também, não aconteceram as previsões dos pessimistas, que viam o último homem sendo esmagado pela última árvore que derrubasse ou, então, mortos sufocados na multidão que ocuparia o Planeta inteiro segundo as previsões de de Thomas Malthus. Também não surgiu o Big Brother personagem de 1984 de George Wells, descrevendo uma sociedade repressora de dar inveja a Adolf Hitler ou Josef Stalin.

No entanto, apesar dos celulares cada vez mais sofisticados e a capacidade de armazenamento de dados quase ilimitado, ainda estamos presos a velhas tecnologias. Os carros que circulam nas ruas e estradas têm motores substancialmente os mesmos daqueles que saiam das linhas de montagem de Henry Ford no amanhecer do século 20, evacuando dióxido de carbono pelo cano de descarga. E os aviões, beirando a estratosfera, bombardeiam a frágil camada de ozônio do Planeta. Por mais que canais como o Discovery nos fale dos encantos da aeronáutica moderna, com os maravilhosos bombardeiros que só erram o alvo por causa dos relapsos pilotos da OTAN, o fato é que que todos os aviões que cruzam os céus usam flaps fundamentalmente iguais aos utilizados no início do século passado.

          Enfim, a imaginação vai muito mais rápido do que todo progresso tecnológico. No final do século 19, mesmo com a precária tecnologia de então, o inglês H.G Wells escreveu a Máquina do Tempo e até acertou algumas previsões, como as guerras que assolaram o século 20. Leonardo da Vinci, Júlio Vernes, Aldous Huxley... É uma lista enorme de mentes ansiosas para enxergar o futuro, sem se esquecer do futurólogo mais pessimista de todos, Nostradamus.

No entanto, a incógnita do futuro permanece. Uma pedrinha de nada pode desencadear desenvolvimentos imprevistos ou solavancos indesejados.

           Para a geração que viveu a febre futurista das décadas de 1960 e 1970, o futuro chegou e, a opção mais avançada, por enquanto, por enquanto, é comprar um bilhete sem volta para Marte.


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UM CORPO NA PRAIA

08-09-2015

 

         “As armas e os Barões assinalados

         Que da Ocidental praia Lusitana

         Por mares nunca de antes navegados

         Passaram ainda além da Taprobana...”

 

         E o que tem haver os Lusíadas com o corpo do menino sírio morto na praia e que acendeu a indignação momentânea de quase o  mundo inteiro? Tem sim. Se levarmos em conta que Os Lusíadas de Camões talvez seja o maior hino ao colonialismo. Dizemos indignação momentânea, porque infelizmente assim será, a não ser para uns poucos militantes de pequenos grupos.

 

         No dia a dia dos europeus, entretanto, pouca gente está disposta a ir até as últimas consequências na luta pela destruição do “Forte Europa” e permitir a livre entrada de imigrantes. Aliás, isso não existe ainda em lugar nenhum do mundo.

 

         Na verdade, estamos diante de dois fenômenos que acompanham a humanidade desde seus primórdios: migração e guerra. A globalização promovida pelo bípede chamado ser humano vem de muito longe, graças a sua capacidade de se adaptar a qualquer clima e, mais do que isso, sua destreza de modificar a natureza em função de seus objetivos. “A mão humanizou o macaco”, dizia Engels. Muito antes das naus portuguesas indo além da Taprobana, os exércitos de Alexandre da Macedônia foram grandes exemplos do expansionismo pela força, de lutar pela globalização de uma cultura, a grega, destruindo ou passando por cima de outras civilizações. A resistência a tais invasões está na origem da maioria das grandes guerras. E continua no mundo contemporâneo com a existência de um império que pode destruir o mundo inteiro com o clicar de um botão.

 

         A migração sempre teve duas vertentes. A migração pela força, pela ocupação e migração defensiva, de gente procurando um lugar para viver, geralmente pessoas de países ou regiões ocupadas pela força. O que acontece hoje nas praias europeias tem ainda a ver com o expansionismo colonialista europeu incrementado no final do século XV. No Continente Americano os nativos não puderam resistir aos canhões, os trabucos e a cavalaria vindos das naus e caravelas. No entanto, o colonialismo, aos expandir sua cultura, criou uma espécie de vitrine, um chamariz para os impérios. A princípio foi possível impedir a imigração das colônias para as metrópoles, mas isso se torna cada vez mais difícil, graças aos meios de transporte cada vez mais rápidos. Se de um lado foi impossível para os povos indígenas deter os invasores em suas caravelas, muito provavelmente a Europa não vai conseguir deter a onda de imigrantes vindas das ex-colônias e utilizando todos os meios de transportes imaginados. É o troco. A tragédia no mediterrâneo é uma indicação muito forte de que não será possível segurar indefinidamente a onda de imigrantes, que o esplendor e a pureza racial dos impérios são coisas do passado. Os cadáveres boiando nas costas do Continente são um aviso de que o “Forte Europa”, sonho da direita, não resistirá, a não ser que o mundo mergulhe novamente em novo período nazi-facista.

 

         Evidentemente, não podemos esquecer o perigo do fanatismo religioso, que tem hoje sua expressão máxima no EI, Estado Islâmico. No entanto, infelizmente, faz parte da dinâmica capitalista sempre ter ameaças do tipo para perpetuar sua expansão. E, mais uma vez, o Estado Islâmico é um monstrengo criado pela desastrosa política dos Estados Unidos e de seus aliados europeus no Oriente Médio. Foram eles que armaram os opositores dos governos árabes, futuros integrantes do EI. A mesma coisa aconteceu no Afeganistão, quando os EUA, para lutar contra os russos que davam apoio ao governo socialista do país, armaram e treinaram os chamados “freedom fithters”, que se tornaram os talibãs. Sem ameaças, num mundo de paz, o capitalismo treme em suas bases. Para os EUA e seus aliados europeus, o EI é apenas o que eles chamam de “a bola da vez” e só vão lutar contra ele para valer quando isso servir a seus interesses. No momento, por exemplo, para concentrar os esforços na destruição do EI, há a necessidade de diminuir a pressão sobe a Síria (inimiga de morte do EI) e aceitar uma frente ampla com a Rússia e a China para combate-lo. Não creio que no momento isso seja possível. Ainda vai ter muitos cadáveres nas praias europeias.

 

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DE ARREPIAR OS CABELOS
           10/10/2015

 

        Escândalo aqui, escândalo ali, tribunal com juiz acusado de corrupção julgando contas do governo, impeachment já, impeachment é golpe e toma lá um festival de pragas e discussões com xingatórios que assola a internet e até imprensa bem instalada, sem falar dos bancos com seus lucros abundantes e com regateios para conceder um mínimo aumento dos salários de seus empregados. Mas não é nada disso que me arrepia o cabelo, que aliás, nem os tenho. No entanto, o que me arrepiou mesmo, por dentro e por fora, cabelo onde os tenho e a pele toda da cabeça aos pés, foi a pesquisa da Data Folha do dia 28 de setembro com a pergunta simples e rasteira:

“Você concorda que bandido bom é bandido morto?”
 

         Com o estômago já revirado,  li o resultado: empate. Ou, por outra, metade dos mais de 1.300 entrevistados em 84 cidades acima de 100 mil habitantes respondeu sim: bandido bom é bandido morto. Não se especificou bem o que se entende por bandido. Mas creio que a referência é aos assaltantes saídos das favelas e das comunidades pobres da sociedade e não aos ladrões de colarinho branco trabalhando em escritórios de luxo ou dependências governamentais e vivendo em apartamentos de luxo e palacetes no Leblon, Ipanema, Lago Sul de Brasília, Jardim Paulista e outras pragas paulistanas onde a arte do bom viver é o orgulho máximo da burguesia bem nutrida.
 

          Mas, vá lá,  Mesmo se a resposta de OK à proposta “bandido bom é bandido morto” coloca todos no mesmo saco – como se a bandidagem fosse como o saco do PMDB onde cabe tudo – eu ainda digo que é algo para vomitar. Ou pior. Para temer. Temer muito.

Quer dizer, então, que metade da população do Brasil, considerando-se eficiente o método de pesquisa da Data-Folha, é a favor de ir matando os bandidos, instalando esquadrões da morte em cada esquina ou armando a população para que se faça um OK Curral a cada instante na Avenida Paulista, na orla do Rio de Janeiro e mais invasões de favelas e comunidades pobres como se já não houvesse o bastante! No chamado mundo ocidental, o Brasil é um dos poucos países onde ainda existe Polícia Militar, resquício da ditadura.

E tomem nota: só este ano em São Paulo foram mortas pela polícia militar 571 pessoas entre suspeitos de crime e gente inocente por estar no lugar errado e na hora errada. Mande bala, na lógica de uma polícia já considerada uma das mais violentas do mundo e onde um punhado de bandidos mortos vale por um ou dois inocentes abatidos por engano. Efeitos colaterais, como dizia Rumsfeld quando invadia com Bush e Cheney o Iraque em ruínas. No entanto, não há guerra no Brasil e as causas da violência urbana têm profundas raízes sociais. A principal delas é péssima distribuição da renda que faz do país um dos mais injustos do mundo, ainda que a situação tenha melhorado um pouquinho nos últimos anos. E, no entanto, é por causa dessa política de melhor distribuição da renda que a classe medida e a direta gritam pelo impeachment ou pela  quebra da institucionalidade.
 

           Mas não vamos desviar o assunto. A segunda causa da violência no Brasil é o tráfico de drogas. Isso poderia ser facilmente resolvido liberando-se o comércio de algumas delas com já vem ocorrendo em vários países. Vale repetir que até a ONU chegou à conclusão da inutilidade da guerra contra as drogas, Há, inclusive, um relatório de 2011 assinado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso a respeito. No entanto, dois setores são radicalmente contra a liberalização: os traficantes e a polícia, para que continuem com o jogo de gato e rato, numa teia de corrupção e violência.
 

         Enfim, o tráfico é um vasto assunto certamente para um outro artigo. O que nos interessa aqui é ressaltar como ele contribui para o aumento da violência. Veja, por exemplo, o caso do México, onde os assassinatos na guerrinha suja entre a Polícia, a DEA dos EUA e os carteis são com resquícios de maldade.
 

         Para finalizar. Sugiro que o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, que encomendou a pesquisa da Data-Folha, peça uma outra para ver quem concorda com essa afirmação: um bandido bom é um bandido recuperado.

O resultado pode decepcionar dado ao avanço ideológico da direita no Brasil.

Tarcisio Lage

         

       

UM ESPECTRO RONDA O BRASIL

 30-11-2015

 

           Por mais fundamentadas que sejam as acusações contra o senador Delcídio Amaral, um escárnio no dizer da ministra do Supremo Tribunal Federal, Carmen Silva, há um espectro que ronda o Brasil. Da impunidade que sempre reinou desde os tempos coloniais, passando pelo império, a república velha, a ditadura getulista, a nova república, a ditadura militar com suas obras faraônicas e os centros de tortura até o renascimento democrático em 1985 (ainda controlado pelos generais, numa eleição indireta) chegamos a essa tentativa em onda crescente de quebrar o equilíbrio dos três poderes, submetendo, para começar, o Poder Legislativo ao Poder Judiciário. E, na onda crescente na promoção de juízes vedetes e delações premiadas, sob os gritos de uma classe média temerosa que a melhor distribuição da renda afete seus privilégios, corremos o risco – o pior deles – de chegarmos a um Estado Policial. É esse o espectro que ronda o Brasil. O espectro do Estado Policial, do perigo da delação premiada se tornar a delação obrigatória.

          O STF não poderia mandar a polícia prender um senador no exercício de suas funções sem ter antes pedido autorização do Congresso. Poderes iguais não podem exercer a coerção um sobre o outro sem quebrar o sistema. Ah, sim, o Supremo pediu a autorização, mas depois do fato consumado e repercutido em todos os meios de comunicação. Como nos tempos de Joaquim Barbosa, jogando com a opinião pública, quase sempre manipulada. Independente das fortes acusações contra Delcídio, o Senado votou coagido. Pela opinião pública, pela massa, que pode ser uma boiada em disparada sem rumo ou quase uma nação inteira que se faz cega aos fornos de extermínio criados em seu nome. Exagero? Vá lá, um pouco. Como é exagerada a onda moralista que toma conta do país, onde político vira sinônimo de bandido e juiz de direito herói nacional. Vivemos num regime capitalista e hoje, mais do que nunca, é o capital financeiro - os bancos, as casas de investimento - que controla o espetáculo. A devassa na Petrobrás (que poderia ter começado bem antes), a prisão de executivos das maiores empreiteiras nacionais, o xilindró para políticos e outros até então intocáveis, faz parte do jogo, da guerra feroz e suja que se trava no interior do sistema capitalista. Um sistema por trás das duas maiores guerras da humanidade, um sistema que se estraçalha, enquanto que, ao lado das maravilhas que cria, é responsável pela injustiça escancarada num relatório publicado em janeiro pela organização Oxfam de que 1% dos mais ricos detém a riqueza da metade dos habitantes do Planeta. Diante disso, que teve pouquíssima repercussão, a escandalosa corrupção na Petrobrás parece crime de ladrão de galinha.

           E o que tem a cesta com os ovos, para não utilizar uma expressão chula equivalente? Deve ter gente perguntando, certa de que estamos desviando do tema, querendo generalizar a crise brasileira. Não se trata de generalizar, mas de incluí-la no contexto. Quando o PT foi criado na onda das greves operárias no ABC, seu programa podia ser definido como “socialista democrático” ou algo do estilo como uma social democracia avançada. Para eleger Lula em 2002, depois de três tentativas frustradas, o programa do PT foi rasgado e substituído por outro quase igual, ideologicamente falando, ao programa do PSDB. O Lula das lutas operárias tornou-se o Lulinha Paz e Amor criado por Duda Mendonça. Mesmo assim, Lula promoveu uma distribuição de renda jamais vista no Brasil. Porém, em nome da governabilidade, ele entrou de corpo e alma no jogo político das mesquinharias, do toma-lá dá cá, fez acordo com banqueiros e pecuaristas e um punhado de coisas que não agradaram a forte militância petista. Pode-se até dizer, Lula foi um péssimo presidente. Infelizmente, o melhor que o Brasil já teve.

          Então, para cortar o bull shit, como dizem os estadunidenses, o propósito do Juiz Moro e de parte do judiciário desde a época de Joaquim Barbosa, é prender Lula, desmoralizá-lo, jogá-lo na lata de lixo da História. Todo o resto é secundário: o combate à corrupção gigantesca na Petrobrás que vem de longa data, a prisão de altos executivos, a farsa do mensalão e a Operação Lava a Jato, inspirada na Operação Mão Limpas na Itália que, depois da devassa feita, não impediu a volta de um Berlusconi ao poder. Até o impeachment de Dilma é secundário. Se ela fez um estelionato político, como é genuinamente acusada, isso não dá direito constitucional ao impedimento, ainda que seja um jogo político sujo. Se se pretende evitar situações semelhantes no futuro, que se vote um sistema parlamentarista, um tiquinho melhor que o presidencialista, onde se dá um cheque em branco por quatro a um dirigente. Mas, o que se pretende mesmo é esmagar o “Molusco”, impedir sua possível volta em 2018, varrer do mapa a possibilidade de que gente das classes inferiores possa chegar ao poder. A burguesia quatrocentona paulista bate palmas e agradece. No entanto, o grande perigo, que assinalamos no princípio, é de que, nesse processo, o sistema de três poderes independentes caia por terra e surja um Leviatã na forma de Estado Policial, onde a delação é uma virtude. Contra um Estado desse tipo, denunciar a corrupção e lutar contra ela pode dar cadeia, como já aconteceu recentemente, durante a ditadura militar.

Tarcisio Lage

         

 
 
 
 
 

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