EU, CIDADE

                                         Prólogo

     Meu nome não interessa. Sou uma cidade do interior de Minas Gerais, plantada no meio do cerrado e decidi contar a minha história. Por quê? Talvez porque os meus mortos estejam outra vez agitados como na época em que quase me levaram à loucura completa. Mortos se agitam? Os meus, sim. Reviram-se nas sepulturas ao mínimo sinal de mudança, como que instituídos pelos vivos os guardiões do deixa estar como está. Mortos-vivos, vivos-mortos. Está um frenesi danado debaixo das sepulturas. E por cima também.

     E por que tamanho alvoroço?

     Creio que descobriram que estou à caça de um transformador ou de um punhado deles, o que seria bem melhor. Ouvi o choro de uma criança mais forte do que de costume e, quem sabe, seja ele ou seja ela, a pessoa que ando desesperadamente procurando para dar um jeito no que nada muda, vermes que passeiam por minhas ruas, mendigos ao Deus dará, adolescentes pasmados ainda sonhando com os arranha-céus da Metrópole (Belô?), enquanto fumam maconha, bebem caipirinha de vodca e batem papo na internet e no celular.  Que coisa! Passam as décadas e os instrumentos para manter a mesmice beneficiam-se com a tecnologia, os velhos loroteiros e suas esposas fofoqueiras já trocam e-mail, a camionete com o alto-falante anunciando meus mortos aos berros foi substituída por um website da Casa Funerária, o sino ainda toca, mas sem o berreiro anunciando da torre da Igreja um enterro qualquer. Blim-blam, blim-blam.      É uma rotina atrás da outra.

    Extrapolei. Está tudo danado e eu estou furibunda sem saber se apenas narro, ou se continuo com a boca no trombone pedindo algo que seja realmente novo, que eu encontre o diabo de um transformador. Ou, pelo menos, revirando todas as sepulturas, tope com um morto, ou uma morta, pode ser um só, que não comungue com o imobilismo, que seja o exemplo de uma vida sem viseira. Pronto, estão vendo, destrambelhei, cheirei muito pó na minha vida, deve ser isso, pó amarelo, poeira mesmo, só agora tenho asfalto ainda que esburacado, moderna, posso baratinar-me com gás carbônico.

     Chega de reclamação. Narrar, narrar, narrar, é só isso que eu quero. Ser uma Sherazade de tijolo com uma história em cada esquina e segredos atrás de cada porta. No entanto, para contar minha história, sou obrigada a selecionar personagens e épocas, obedecendo a um único critério: a busca desesperada por transformadores que me coloquem no redemoinho dos novos tempos, que me façam falar e entender a linguagem do mundo. Aí está. Prometo: doravante vou ser objetiva e até pagar prendas se houver exagero de adjetivos desnecessários e comentários dispensáveis.

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